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Empresas cortam margens, adiam investimentos e reduzem descontos

-SÃO PAULO- As oscilações bruscas do câmbio e a alta de quase 10% do dólar nos últimos 45 dias estão drenando as margens e comprometendo o caixa de empresas que dependem de insumos importados e têm dívidas em dólar. Entre os setores mais afetados, porque mantêm dívidas em dólar ou porque importam componentes, estão os de cabotagem, siderurgia, petroquímica e farmacêutico.

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Fábrica de medicamentos. Com 95% dos insumos importados, indústria farmacêutica sofre impacto da alta do dólar
A Aliança Navegação e Logística, de transporte de cabotagem, já gasta R$ 1 milhão a mais do que gastava em janeiro para abastecer com diesel 11 navios no Porto de Santos, um aumento de 37%. Além do câmbio, também pesou na conta a valorização do petróleo. Para amortizar o custo, a empresa começou a repassar aos clientes uma sobretaxa de combustíveis.

— Tivemos que repassar, porque não temos mais margem para absorver essa alta — explicou Marcus Voloch, gerente-geral de Cabotagem e Mercosul da empresa.

CUSTO COM GREVE, FRETE E DÓLAR

A empresa fez seus planos de custos para o ano com um dólar a R$ 3,40. Agora, já começa a refazer os cálculos para o terceiro trimestre. Outra despesa em dólar da companhia é o afretamento de navios (contratação de um navio feita diretamente com um armador).

Com 95% dos insumos importados e com preços reajustados pelo governo uma vez ao ano, o setor farmacêutico é uma das presas do dólar volátil e elevado. Como a maioria dessas empresas não fez o chamado hedge (proteção contra as oscilações da moeda americana), um dos caminhos para amortizar a elevação do dólar será reduzir os descontos em medicamentos dados nas farmácias, explicou Nelson Mussolini, do Sindusfarma, que representa as farmacêuticas:

— As indústrias farmacêuticas multinacionais só fazem hedge quando há determinação da matriz. Mas não havia essa expectativa de alta repentina do dólar para o Brasil, portanto as empresas não fizeram essa proteção. Uma das formas de amortizar a alta é reduzir os descontos de medicamentos ao consumidor, mas outra consequência será a retração dos investimentos em inovação, produção e marketing. Por enquanto, ainda não está claro de quanto será essa redução, porque ninguém sabe o que vai acontecer .

Por ano, a indústria farmacêutica movimenta no país R$ 58 bilhões. No mês passado, a greve dos caminheiros já havia levado o setor a perder R$ 1,5 bilhão. Agora, diz Mussolini, é o dólar que vai encarecer os produtos, sem falar do reajuste dos fretes.

Roberto Giannetti da Fonseca, da Kaduna Consultoria, estima que o dólar fechará o ano a R$ 4 ou mesmo acima disso. Com os EUA aumentando os juros por causa da inflação acima da meta, o que deve acontecer já na próxima semana, parte do capital hoje nos emergentes tende a migrar para o mercado americano.

— Não temos de nos espantar nem ficar indignados. Basta olhar o que está acontecendo no mundo, que é a valorização do dólar em relação à moeda de todos os emergentes — disse, para completar: — O problema não é a tendência, mas o efeito manada entre investidores, que cria a volatilidade de sobrevalorização ou subvalorização.

‘NOSSA MARGEM FOI ZERADA’

Também é impactada pelo dólar mais caro a chinesa BYD, uma das principais fabricantes de veículos elétricos do mundo. A companhia abriu filial no país para a entrega de 30 carros elétricos à prefeitura de São José dos Campos e de 200 caminhões elétricos para a gestão de resíduos em Indaiatuba e São Paulo.

A empresa importou equipamentos de sua fábrica da China levando em conta escala de cotação que, no pior cenário, considerava um dólar de R$ 3,60.

— Na área de veículos, a margem do fabricante é de 7% ou 8%, no máximo. Com a forte alta do câmbio, nossa margem foi zerada, não vai haver lucro nenhum — afirmou Adalberto Maluf, diretor de Sustentabilidade e Novos Negócios da empresa.

Como os produtos são faturados quando desembarcam no Brasil, a BYD “deu azar” de trazer os itens justamente no atual ciclo de alta do câmbio. A empresa calcula precisar de uma demanda de, pelo menos, 50 mil unidades ao ano.

Fonte: O Globo