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Como tratar a Transformação Digital na Saúde Pública

A transformação digital na saúde pública analisada por dois especialistas: um com experiência em um centro público de excelência oncológica em São Paulo, com bastante foco em pessoas, sejam funcionários, sejam os pacientes e seus familiares, outro com experiência em um hospital de clínicas estatal no Sul do país com foco em gestão, processos e produtividade. Estas foram as óticas de dois artigos que integram a Nota Técnica “Painel ABIMED: os impactos da transformação digital na Saúde”, iniciativa da ABIMED. Os responsáveis pelos trabalhos são o coordenador do Departamento de Inovação do Hospital de Amor de Barretos, Dr. Luís Romagnolo, que escreveu “O Impacto da Transformação Digital na Saúde Pública do Brasil”, e o Senior IT Advisor do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Valter Ferreira, com o artigo “Transformação Digital: Gestão, Processos e Produtividade na Saúde”.


Ambos os trabalhos ressaltam que, sem dúvida, a transformação digital no sistema de saúde tem sido nítida e importante, especialmente como catalisadora de agilidade e apoio à tomada de decisões mais precisas. “Na saúde pública, não poderia diferente. Vivemos uma aceleração na adesão de tecnologia e processos mais ágeis durante os anos de 2020 e 2021, principalmente com o efeito da pandemia causada pela COVID-19. Porém, ainda temos um longo caminho pela frente. Em um país onde quase 70% da população depende do Sistema Único de Saúde (SUS), a capilaridade e velocidade de adesão são critérios fundamentais para a transformação digital”, destaca Luís Romagnolo. 


“O desenvolvimento tecnológico no sistema público de saúde ainda é heterogêneo no Brasil, representado pela presença de algumas ‘ilhas de inovação’ espalhadas pelo país, criando um contraponto com regiões que possuem condições mínimas para atendimento à população. Vivemos uma aceleração na transformação digital do sistema público de saúde nos últimos anos, mas ainda temos muitos desafios para chegar ao cenário ideal”, completa.


Valter Ferreira segue a mesma linha de avaliação. “Entendo que no Brasil a transformação digital da saúde pública é ainda muito incipiente. Em que pese as grandes instituições de saúde, normalmente nas capitais ou regiões metropolitanas, estarem em estágios muito avançados, a maioria dos estabelecimentos de saúde carece de investimentos em transformação digital”, afirma.


Diante dessa realidade, há alguns desafios a serem superados para que se possa ampliar essa transformação.  “Transformação Digital não se realiza de forma simples, por meio da mera contratação de uma solução tecnológica. Depende de modificação de processos e da cultura institucional. Para que se torne realidade, é necessário o envolvimento da camada estratégica e o convencimento do corpo funcional de que não há mais espaço para empresas totalmente tradicionais e conservadoras. As tecnologias devem ser impregnadas na organização para facilitar a vida dos colaboradores e gerar impactos positivos para os pacientes”, diz Ferreira.


Para eles, a estratégia de transformação digital deve ser gradativa, porém, impactante. “Vivemos outro grande desafio que é a grandeza de um país de dimensão continental e com realidades particulares em cada região do país, inclusive dentro de um mesmo estado. Por fim, enfrentamos outro grande desafio que é a necessidade de alto investimento financeiro em projetos de tecnologia e inovação para saúde, sendo que muitas vezes estes projetos ainda estão em níveis de prontidão menos avançados e precisam vencer a barreira regulatória ainda maçante no Brasil para novos projetos”, completa Romagnolo.


Mas qual seria o papel dos gestores públicos para o sucesso dessa transformação digital? Para Ferreira, os gestores públicos de saúde possuem a oportunidade de deixar sua marca nesse momento em que se torna mandatória uma virada tecnológica. “Sobreviverão apenas as instituições que revolucionarem seus processos e sua cultura organizacional”, alerta.


Romagnolo completa dizendo que a “administração pública, em todas as esferas, deve servir como um ponto de encontro entre os diversos atores presentes no ecossistema de saúde, incluindo empresas privadas e universidades para catalisar a transformação. A partir do mapeamento de desafios prioritários e da identificação dos atores que poderão apoiar o desenvolvimento de soluções inovadoras, o poder público deve proporcionar um canal de aquisição ou abertura simplificada para provas de conceito com projetos inovadores e startups, tendo como resultado a aplicação real de tecnologia na cadeia da saúde”.


Outro ponto abordado diz respeito à gestão de dados e sua importância dentro do processo. “Informações de saúde são o novo ouro. Muito antes de falarmos em LGPD, os processos de governança de dados de saúde já existiam e os tratavam como ativos críticos. Cada vez mais são necessários processos maduros de governança de dados e proteção de informações sensíveis, sem prejudicar a utilização segura dos dados para tomada de decisão e subsídio à melhoria da assistência”, lembra Ferreira. 


Romagnolo ainda destaca que, apesar do bônus que o gerenciamento de dados possibilita, como apoio na tomada de decisão mais precisa, há também o ônus da responsabilidade.  “Armazenar, tratar e utilizar dados para a tomada de decisão é um assunto extremamente delicado e deve ser endereçado de forma estratégica pelos órgãos e empresas de saúde, a partir de uma política clara e institucional de coleta, armazenamento e uso dos dados. No sistema público de saúde, há ainda o desafio da heterogeneidade e falta de padrões na disponibilidade e tratamento destes dados, levando em consideração a diferença de sistemas, origem de dados e formas de processamento nas diferentes esferas e unidades do sistema de saúde”, detalha.


Entre os exemplos de experiências que devem ser destacadas no momento, Romagnollo cita o Hospital de Amor de Barretos, onde foi criado o Harena, um Hub de Inovação em saúde que aposta na inovação aberta para transformação da saúde pública. “Além disso, em 2017, em parceria com o Instituto de Tecnologia de Software (ITS) e a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), com o apoio do Ministério da Saúde, o Hospital tomou a iniciativa de estruturar um Centro de Inovação para a Oncologia. Batizado de SmartAMOR, o centro tem o objetivo de desenvolver tecnologias e soluções que estejam em linha com as tendências mundiais de inovação. É importante salientar que a aproximação entre empresas privadas e o setor público de saúde é indispensável para aceleração da transformação digital”, afirma o médico.


Os dois articulistas ainda encerram reforçando a importância da Nota Técnica idealizada pela ABIMED. Ferreira entende que o material, quando aborda o tema transformação digital na saúde pública, permite a divulgação de processos exitosos na área pública, não apenas incentivando que novas organizações iniciem seus processos, mas também demonstrando que hoje estão disponíveis soluções tecnológicas de alta qualidade, financeiramente acessíveis e que permitem a organizações de todos os portes darem início ou continuidade a seus processos de transformação digital, de forma a permanecerem competitivas e entregadoras de resultados, especialmente na assistência de qualidade ao bem maior, o paciente.


Já para Romagnolo, a iniciativa ainda proporciona informação e nivelamento do conhecimento técnico sobre o assunto e é o ponto de partida para a aceleração da transformação digital no país. “A Nota Técnica da ABIMED e diversos outros trabalhos veiculados em seus canais apoiam gestores, líderes, empreendedores e profissionais de saúde a entenderem com profundidade a complexidade do tema e mostram alguns caminhos para implementação de iniciativas de sucesso. É necessário, cada vez mais, exercitarmos a colaboração entre os atores e compartilharmos de forma aberta história de sucesso e fracasso na transformação digital na saúde”, finaliza.



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