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Imprimindo inovação

De tempos em tempos, uma novidade tecnológica aparece com o rótulo de que vai transformar o mercado, acabar com profissões e mudar a forma de trabalho. Foi assim com a Revolução Industrial e a invenção da máquina com a eletricidade, com o computador, com a internet e, mais recentemente, com o smartphone. Agora, entram na lista blockchain, internet das coisas e, claro, a impressão 3D. Essa última, em análises mais futuristas, revolucionaria não só a indústria mas diversos outros setores da economia — da saúde à moda. Segundo o relatório O Futuro do Trabalho 2018, do Fórum Econômico Mundial, 49% das empresas brasileiras, de áreas diferentes, pretendem investir nas três dimensões até 2022 e, de acordo com um estudo do banco americano Goldman Sachs, essa é uma das oito tecnologias que vão mudar os negócios.
Desde quando surgiu uma das primeiras patentes de impressoras 3D, ainda na década de 80, o método melhorou muito. A máquina era cara, lenta (demorava mais de um dia para imprimir um objeto de 10 centímetros, o que hoje pode ser feito em menos de uma hora) e estava limitada ao polímero. Foi por meio do investimento de universidades e de grandes empresas, como HP e GE, que o processo se tornou mais rápido e barato — além de ganhar “cargas" que vão de insumos industriais a órgãos humanos.
A versatilidade desse dispositivo é tão atraente que os interessados pela tecnologia crescem. De acordo com um estudo da consultoria Wohler Associates, o número de fabricantes dessas máquinas aumentou de 97, em 2016, para 135, em 2017. Entre os entusiastas está a Nasa, que pagou 125000 dólares para uma empresa texana desenvolver um aparato de impressão de comida para os astronautas — o que revolucionaria a alimentação no espaço. Mas não é preciso ir até Marte para desfrutar da gastronomia das máquinas. “Imagine fazer uma sobremesa para convidados ou amigos em sua casa e ela ser impressa no momento? Isso já existe. Há padarias imprimindo bases de tortas”, diz Luis Rasquilha, CEO do Inova Consulting, consultoria especializada em inovação.
Ao alcance das mãos
Mas engana-se quem pensa que o maquinário fica restrito às empresas e às universidades. “Assim como hoje, quando você precisa imprimir seu TCC vai até uma gráfica, haverá locais para imprimir projetos, protótipos e peças em 3D”, afirma Cláudio Raupp, presidente da HR E esses lugares já estão começando a surgir. Um deles é o Bricolab, oficina de bricolagem da companhia de materiais de construção Leroy Merlin. Construído em uma das lojas de São Paulo da multinacional francesa, o ambiente tem sete impressoras desse tipo à disposição dos frequentadores
(clientes ou não da loja) que, para usá-las, pagam 50 reais pela primeira hora e 25 reais por hora adicional.
Quem coordena o espaço é o paulistano Thiago Galassi, de 33 anos. Formado em engenharia eletrônica, Thiago aprendeu sobre o assunto sozinho com a ajuda da internet — chegou a montar um maquinário 3D em casa em 2013. Antes de entrar nesse mercado, Thiago trabalhou em empresas tradicionais na área de fabricação mecânica. A virada em sua carreira começou em 2016, quando foi contratado como técnico de um laboratório de fabricação digital da Leroy. Hoje, ele treina os funcionários, faz o planejamento, as compras e a administração financeira e técnica do local. “Essa é uma oportunidade que teria perdido se não tivesse começado a estudar sozinho”, afirma.
Nos poucos meses em que está à frente da operação, Thiago já ajudou uma senhora a consertar uma máquina fotográfica de 1954 que estava sem uma peça essencial para seu funcionamento — o equipamento não era mais produzido pelo fabricante. “Era a primeira câmera que ela tinha ganhado na vida. Nós imprimimos o que ela precisava”, diz Thiago. A maioria dos clientes, no entanto, é
formada por profissionais da saúde que vão testar a fabricação de próteses ou representantes de indústria e empreendedores que precisam criar um protótipo. “Recebemos em média 100 pessoas por dia. Há muita curiosidade por saber como é o processo de fabricação”, diz.
Uma das grandes transformações trazidas pelo maquinário 3D é a democratização da produção — o que dá fôlego para que uma nova geração de empreendedores desafie mercados sólidos. Esse é o caso de Juliana Martinelli, de 26 anos. Engenheira elétrica, ela fundou a Ino- vaHouse 3D, empresa de impressão de casas. Sim, casas. O maquinário foi desenvolvido em parceria com o Senai e a Universidade do Paraná. A “tinta" usada é uma mistura de cimento, areia e água, com outros aditivos que dão resistência à construção. Em fevereiro, a empresa vai tirar a primeira casa do papel, que terá 54 metros quadrados e levará 15 dias para ficar pronta. “Não estamos tão atrasados no uso em relação ao resto do mundo, mas políticas públicas ajudariam a impulsionar o mercado. Em Dubai, por exemplo, há uma meta de que 25% das construções sejam feitas com impressoras até 2025”, diz Juliana.
Aprendendo na prática
0 setor da saúde é um dos que mais investirão nas impressoras -3D. De acordo com o estudo do Fórum Econômico Mundial, 53% das companhias dessa área colocarão dinheiro nessa tecnologia até 2022. No Brasil, o uso já é realidade no departamento de radiologia da Casa de Saúde de São José, no Rio de Janeiro, desde 2017. “Elas auxiliam no diagnóstico e na produção de materiais que se adaptem perfeitamente aos pacientes, como órgãos e ossos”, diz Ilan Gottlieb, chefe do departamento. No primeiro ponto, o hospital já tem vasta experiência. “Conseguimos escanear uma má-formação de um feto ou uma fratura que precisava ser estudada, por exemplo, e criar um modelo em 3D para o médico analisar antes da operação”, afirma Ilan. No segundo, a evolução esbarra em normas da Anvi- sa, que precisa avaliar cada produto impresso. Todas as ações feitas com o dispositivo foram desenvolvidas na prática. “Operar o equipamento ainda não é tão simples e não havia cursos de capacitação, então precisamos pesquisar por nossa conta”, diz Ilan.
Essa é uma realidade do mercado: as escolas ainda estão se preparando para capacitar os profissionais que usarão a nova tecnologia. Mas precisam fazer isso com urgência. “A técnica se popularizou e está invadindo diversos setores da economia. Se uma universidade de odontologia, medicina, engenharia ou design não trabalha com ela, quem está se formando
lá já está fora do mercado”, diz André Skortzaru, fundador da 3D Criar, que distribui impressoras em terceira dimensão e dá consultorias sobre o tema. Para Luis Rasquilha, da Inova, as escolas vão se adaptar à demanda. Assistiremos ao nascimento de muitos programas de graduação e pós”, diz. Centros de ensino como Unicamp, Universidade de São Paulo, ESPM, Mackenzie e Senai já oferecem cursos na área. O Senai, inclusive, lançou um estudo recente no qual lista 30 novas ocupações que surgirão nos próximos cinco a dez anos — e uma delas é o projetista para tecnologia 3D, que deverá ganhar, em média, 3000 reais e ter conhecimentos de programação, gestão tecnológica de automação, internet das coisas e, claro, muita criatividade.
O papel das empresas
O coordenador da Faculdade de Ciência de Computação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Vivaldo Bre- tenitz, acredita que existe a necessidade imediata para alguns profissionais de voltar a estudar. “Como sempre acontece com a chegada de inovação, trabalhos pesados são substituídos por máquinas, e aqueles que conseguem se capacitar mudam de área e passam a ganhar salários melhores”, afirma. De qualquer forma, em sua avaliação, ainda é muito cedo para estimar o impacto real que a impressão 3D terá no mercado de trabalho.
Nesse sentido, seria papel das empresas — e dos profissionais — monitorar o setor constantemente, pois a concorrência é global. “Com o digital, os trabalhadores não precisam mais estar no mesmo país que a fábrica: um bom profissional pode ter clientes em qualquer lugar do mundo e quem está competindo com você por uma vaga pode estar na índia, na Alemanha ou em outro país”, diz Cláudio Raupp, presidente da HP. “Esse é um mercado que gira 12 trilhões de dólares por ano e que afetará todos que fazem manufatura por injeção”, afirma o executivo. A multinacional está trazendo para o Brasil a tecnologia 3D e precisa capacitar sua mão de obra. Para isso, investe em treinamentos internos e já enviou a equipe de vendas brasileira para uma imersão sobre o tema na matriz americana.
Otimista, ele vê muito mais oportunidades para os profissionais do que ameaças. “Haverá demissões, pois as impressoras podem produzir
sob demanda com alto grau de personalização. Por outro lado, serão criados empregos com mais valor agregado e salários mais altos”, afirma Cláudio. Existe hoje uma carência de mão de obra que saiba trabalhar com essa técnica. E quem estiver à frente da onda terá destaque. “O 3D vai impactar todas as indústrias, da comunicação às ciências aplicadas.” A melhor atitude é pensar em como seu setor de atuação vai se transformar com a nova tecnologia. Assim, em vez de se deixar levar pelos acontecimentos, você pode imprimir sua marca nesse mercado cheio de possibilidades.

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